Saidinha de posto

Estava lá, prestes a abastecer. O frentista me orientou a mudar de bomba, porque aonde eu parei, não estava boa. Pacientemente, guiei o carro até a última bomba. Chegando lá, o frentista mau olhou para mim e foi para o outro lado do posto, fora da minha visão, supostamente para pegar um galão de água.

Não observei nada de diferente. Somente um frentista abastecendo meu carro.

Um menino, 14 anos, moreno, roupas sujas, blusa de lá bege (ou seria branco, mas estava sujo?) passou e, meio em código, dialogou com o frentista:

- E aí alemão? Aquela parada alí tá confirmada?

- Tá sim, … <nome do menino, não me lembro> … confirmado, sim. Beleza.

Nada demais. Saí da bomba, fiz o pagamento com cartão de débito, fui calibrar os pneus do carro. Até aí, sem novidades. Saí do posto, passando por uma construção do próprio lugar, e, ao parar no farol, vi rapidamente a aproximação de duas pessoas ao meu lado.

Sem que tivesse tempo para nada, já vi um deles, loirinho, branquinho, jaqueta marrom, rosto limpo, batendo um “berro” cromado no vidro do carro. Devia ser calibre 32. Não era 38. Meio desgastado. Devia ser meio velha.

- Abre o vidro! Abre o vidro. Vai, vai, vai!

Respirei fundo, fiz cara de desentendido. Ao mesmo tempo, instintivamente, coloquei as duas mãos sobre o volante e não falava nada, apenas gesticulava “calma” com as mãos. Coisa de quem já foi assaltado outras vezes em São Paulo.

O menino não conseguia me ver direito, por causa do filme nos vidros. Foi para frente do carro e apontou a arma para o vidro da frente. Nesta hora, os motoristas ao lado, puderam perceber a ação. Mas nada fizeram, inertes pelo medo.

Ao perceber que não havia outra saída, gesticulei mais uma vez, calma. Talvez tenha dito: “vou abrir… vou abrir”. Com muita calma, tirei as chaves do contato, o que destravou a porta. Rapidamente, joguei a chave para trás do banco do passageiro.

- Eu só quero seus bens, cara. Só quero seus bens – já foi dizendo o comparsa, enquanto o outro continuava na frente do meu carro.

E já foi tirando os óculos de sol e mexendo na minha cintura, procurando celulares. Enquanto isso, pela demora, o loirinho veio, tirou o comparsa da jogada e já foi dando ordens:

- Cara, eu quero seus bens. Vai tirando aí. Relógio, celular, carteira – enquanto praticamente entrava dentro do carro.

Eu me fazia de desentendido. Fui tirando o relógio, mas a pulseira atrapalhou um pouco. Então, ele puxou, arrebentando a trava da pulseira – era genérico, mesmo, então quebraria fácil. Demorando, dizia que não sabia onde estava a carteira, me passando por desorientado, mas ainda assim temendo represárias.

Então ele achou o celular no painel. Um que eu não usava muito, mas que certamente tem seu valor. Em seguida, ele olhou bem para os meus olhos e avisou:

- Cara, eu quero a carteira.

Então, sem chances, novamente, tirei a carteira do bolso. Tentei negociar:

- Deixe eu tirar os documentos.

- Não, cara, não dá. Passa ela aí, caramba! – enquanto verificava que alguns carros já saiam em disparada, com medo da situação.

Passei a carteira, com os documentos. Dinheiro? Era pouco. Mas os transtornos viriam, com a burocracia dos documentos.

Antes de sair, meio que para devolver a demora, ele tentou dar uma cabeçada no meu rosto. Foi fraco, mas o suficiente para me fazer do incidente em todas as refeições dos próximos três dias, e ainda me fazer ir até o IML fazer o exame de corpo de delito.

Saíram, correndo, em direção a uma favela, próxima.

Esta é a descrição de mais um guento. Estou vivo, mais tranquilo, agora. Mas a vontade, claro, era revidar. Sair, dar a volta no quarteirão e atropelar os dois. Mas, para que? Minhas armas são outras. Prece aos dois. E que tenham vida longa, depois que caírem suas fichas.

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Agressão

Há algumas semanas, já, eu fui agredido por um morador de rua. Foi uma das coisas mais inacreditáveis que ocorreu comigo, em São Paulo.

A manhã estava quente. O ar, seco. A umidade relativa do ar estava, já há vários dias, abaixo dos 20%. Por isso, meu nariz estava ressecado, sentindo os efeitos do tempo.

Deixei minha mulher na porta do escritório dela. Alguns metros adiante, parei o carro, vidro aberto, e, de repente, ouvi uma voz:

- Ei, o que que é? – já levantou-se o morador de rua – tá querendo dizer o que com este sinal?

Não entendi nada, sequer sabia que era comigo. De repente, percebi que o morador estava à poucos centímetros da porta do carro.

- Qual é que é, meu? Tá querendo dizer o que, com este sinal? – veio gritando novamente, enquanto praticamente atirava-se para dentro do carro.

Como reflexo, afastei-me e comecei a subir o vidro do carro, ainda tentando entender o que ocorreu. Ainda tentei argumentar:

- O que foi, meu amigo? Do que está falando? – abri um pouco o vidro do carro.

- Tá querendo dizer o que com este sinal? – insistiu, enquanto jogava meu óculos de sol todo torcido e quebrado de volta para dentro do carro. Sim. Ele tinha tirado do meu rosto, mas, no movimento, sequer tinha percebido isso.

- Você é louco? Nem tinha visto você aí na rua! – insisti. Saí devagar com o carro, pois o trânsito voltou a fluir.

Pensei: vou para o trabalho, como se nada tivesse acontecido. Ou senão, volto, chamo a polícia e, no mínimo, faço o sujeito circular. Pode ser que ele tente atacar outra pessoa. Por questão de cidadania e bom senso, optei pela segunda alternativa.

Perdi quase duas horas da minha vida. Ainda tive a oportunidade, junto com os policiais, de ser encarado três vezes pelo tal morador de rua. Finalmente, fui para o trabalho.

No entanto, veio a reflexão: eu estava me sentindo feliz em meu novo carro. Talvez por isso, o vidro aberto. Eu fiz questão de comprar com ar condicionado, justamente para mantê-lo fechado. Mas a sensação de realização, fez-me andar com os vidros abertos, talvez para que o vento entrando pelas frestas fizessem aumentar a sensação que eu estava sentindo.

Talvez – e isso é um talvez – as pessoas não estejam preparadas para ver o estado de outras. Sequer eu havia identificado que, ao apertar o nariz, como forma de amenizar a secura que estava sentindo, fosse, para o morador de rua, o sinal de que ele cheirava mal – e de fato, cheirava.

Primeira conclusão: o morador tinha alguma consciência e dignidade. Ou não teria se ofendido com o meu suposto sinal.

Segunda conclusão: o sinal que foi mal interpretado, certamente não foi proposital, mas ocasional. Não tive a intenção de ferir ninguém, mas quase fui ferido. É preciso tomar mais cuidado com o que estamos comunicando ao ambiente à nossa volta.

Terceira conclusão: se há um propósito em algo, faça com que ele seja seguido. Se o ar condicionado era para dar mais segurança, use-o e fique de vidros fechados, oras!

E você? Qual a sua opinião?

Rodolfo Nakamura

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Na educação, não vale ganhar no grito

Como professor, estou farto de ver os alunos quererem ganhar suas notas na base do grito ou da barganha. Não tenho tido muito desses problemas, mas sei de diversos casos que têm ocorrido com meus colegas de profissão.

É preciso levar essa questão da educação de maneira mais séria. Nãol agüento mais ver e ouvir os alunos levarem sua vida estudantil e acadêmica baseada na idéia de resultados. Sim. No futebol, um dos expoentes de nossa cultura, o que vale é o resultado – a vitória – já preconizam onze entre dez treinadores em destaque. Assim como na formação pessoal ou profissional dos indivíduos. Mas, tanto em um caso quanto em outro, é importante saber que existem regras, ética e bom senso.

Os poucos casos que ocorreram comigo, uma situação curiosa ocorreu. Os alunos de fato confessam seu pouco empenho, seja na presença, seja na atitude em aula, esforço e dedicação. Seria um artifício para comover o professor?

Recentemente, os apelos chegaram ao limite da dignidade humana. Um caso, o aluno mostrou-se tão empenhado em reverter sua situação, inclusive em “levar às últimas consequencias”, seja lá o que fosse. Expôs todas as dificuldades particulares que teve e tem. Como se fosse o único. Tempo, conversa, energia e esforço dedicados à sua nova tarefa de reverter sua reprovação, caso tivessem sido utilizados em fazer o papel que lhe cabia – estudar, compreender, apreender e aprender, demonstrando os resultados nas quatro oportunidades que foi avaliado (somente na minha matéria) – teria sido mais que suficiente.

ESTÃO QUERENDO DAR UM GUENTO na minha dignidade e no meu ideal de educador. Não vou.

Valores como ética e honestidade são binários. Ou você tem ou não têm. Isso vale para todos, professores e alunos. “dar uma forcinha”, alterando notas ou presença, fere a ética no instante que o privilégio é estabelecido para um aluno em detrimento dos demais, que alcançaram seus objetivos mediante esforço próprio.

Mais grave do que isso, é passar adiante um indivíduo (na formação fundamental ou ciclo médio) ou um profissional (ensino superior) que não terá condições de prestar seus melhores serviços à sociedade. NÃO faz parte da minha ética FORMAR CIDADÃOS DE SEGUNDA CLASSE. Minha ética não permite.

Desculpem-me os “prejudicados”. Mas a ética, a moral e o compromisso social, inclusive incrustrado na lógica jurídica, reza que não se deve privilegiar um em detrimento dos demais.

E você? Ainda acredita que “levar vantagem em tudo” ou “dar um jeitinho” é a sua filosofia de vida? Pense e aceite: melhor mesmo é viver na verdade. Seja o melhor que pode, assuma a responsabilidade de conduzir sua vida de maneira reta e direita.

Até a próxima.

Rodolfo Nakamura

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Seleção: deram um guento em nós

Eu deveria ter escrito este post no começo da Copa do Mundo da África. Ou um pouco antes do jogo contra a Holanda. É que trata-se de uma teoria conspiratória e, agora que fomos eliminados, fica mais fácil fazer algumas afirmações.

Conspiração? Segundo o Michaellis:
cons.pi.ra.ção
sf (lat conspiratione) 1 Ato de conspirar. 2 Plano formado secretamente entre muitos contra os poderes públicos. 3Conluio, maquinação, trama. 4 Concorrência de vários meios para o mesmo fim. Conspiração do silêncio: acordo tácito para não se falar sobre determinado assunto.

Que conspiração, mano? Tá maluco, é?

Eu acreditava em uma coisa só: se o Brasil fosse campeão este ano, adeus CHANCES de ser campeão em 2014, em solo tupiniquim. Se ganhássemos na África, competição em que a qualidade técnica dos participantes todos os especialistas, inclusive o Casagrande e o Galvão Bueno (sic!), concordam estar baixa, seríamos Hexa. Brasil, em 2014, portanto, nem pensar.

Pelo já comentado nível técnico das demais seleções, até que o Brasil tinha chance, sim. Mas, como explicar o nervosismo da nossa seleção desde o começo do jogo? Pela reação do técnico, enquanto estávamos ganhando ou ainda durante o curto período de empate, parecia que estávamos perdendo e estávamos sem chance alguma de ganhar dos holandeses. Mas, este ano não era nosso, SENÃO, nem pensar em ser campeão do mundo, em casa. Lembre-se.

Tá louco? De onde tirou essa idéia?

Em 1998, nossa seleção era superior. Chegamos à final contra a França que, apesar de Thierry Henry e Zidane, não era uma barreira intrasponível. Ronaldo teria passado mal. Disseram que foi porque sua namorada o havia traído. O emocional da seleção estava abalado e a França ganhou o jogo por 3 x 0. Pois bem. O que havia na França, neste período? Uma grave crise que, supreendentemente, perdeu força após a vitória da seleção, em casa. O país nunca havia estado com uma taxa de desemprego tão alta. Manifestações e tumultos agitavam Paris antes de começar a Copa. Mas, depois, tudo voltou à calmaria.

2002 – Nem era um timaço, o da Seleção Brasileira. Mas, para pagar a dívida, ganhamos. Para isso, tinha que ter competência. Isso é algo que, faz tempo, nossos jogadores têm.

2006 – Para quem não se lembra, às vésperas da Copa do Mundo, estourou uma grave crise no futebol italiano. Equipes como Juventus, Milan, Lazio, Reggina, Arezzo e Fiorentina estavam envolvidos – comprovadamente pela justiça italiana – em um esquema de manipulação de resultados. A seleção da Itália, somente com a tradição garantindo favoritismo, não empolgava. Mas, na final contra a França, venceram. E sobre a crise na Itália? Ah, sim… acabou após a Copa. Na época, eu trabalha em uma rádio e comentei com a equipe logo após a eliminação do Brasil – “quem vai ganhar esta Copa é a Itália”. Devia ter apostado…

2010 – Este ano, logo na primeira rodada, fiquei na dúvida entre quatro prováveis campeões. Argentina, Alemanha, Espanha e Brasil. Pelo nível técnico, o Brasil tinha chances, sim. E boas. Alemanha, porque perdeu a final contra o Brasil em 2002 (para quem não se lembra, na decisão, Ronaldo Fenômeno marcou contra Oliver Kahn, que prometera impedir a vitória brasileira). Argentina porque era uma equipe ofensiva, e com Diego Maradona como técnico (as chances, para mim, dos argentinos levarem, eram menores, mas como os hermanos estavam jogando, heim?). Finalmente Espanha, por tudo o que o futebol espanhol proporciona ao mundo – mesmo com muitos jogadores “importados” nos clubes – e que, sem dúvida, desperta interesses comerciais no mundo dos esportes.

Palpite, de última hora? Alemanha e Espanha na final. Pronto. Arrisquei. Acho que dá Alemanha. Já que Zidane também foi coroado em 1998 – um extra na suposta negociação que envolveu Fifa, Nike e CBF – seria justo que o jogador alemão (de origem polonesa, é verdade) seja homenageado. Afinal, deve mesmo superar Ronaldo Fenômeno como o maior goleador em  Copas do Mundo.

Desculpe dar um guento no seu tempo com mais uma teoria conspiratória sobre Copas do Mundo (não sou o único a acreditar que as decisões do torneio são políticas, atualmente). Mas, não resisti!

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Hoje vou começar a dar um guento em você

Dar um guento é uma gíria que quer dizer algo como: vou roubar algo de você. Sim. Hoje estou revoltado, sim. Hoje fui mais uma QUASE vítima. Porque Deus protege e abençoa, nada, absolutamente nada além de um grande susto ocorreu enquanto aguardávamos o sinal do farol da cidade.

Vou dar um guento no tempo de quem tem paciência e interesse de ouvir.

Prá começar, CHEGA.

Basta. Ontem eu conversava com uma aluna que está se formando este semestre. “Eu detesto leis, direito, política. Não gosto e acabou. Não serve para a minha vida”. Chega de ouvir isso. É a atitude de quem ACHA que não tem nada a ver com o que está acontecendo de ruim por aí.

Formando-se, ela e outros milhares de jovens brasileiros estão se tornando a massa crítica deste país. Mas uma massa anencéfala (sem cérebro, é bom que se traduza). São pessoas que sabem criticar a seleção do Dunga, o governo do Lula, do Serra, do Kassab, de quem seja. Criticam o chefe, a empresa em que trabalham. Mas orgulham-se da malandragem de alguém que lhe seja próximo, do DVD pirata que custou poucos reais, dando uma banana para a ética e um “seja bem vindo” para a falsa moral de que, “se eu tivesse condições, comprava um original”.

Você é parte do problema sim. Você, que está acessando este blog pela internet, tem condições, sim. Seja mais crítico. Mas não iguais a outras pessoas que dizem “eu faria melhor”. Seja autocrítico. Seja melhor. Faça parte. Faça sua parte. Seja ético. Seja moral. Tenha uma atitude de respeito. Faça a diferença. Seja.

Não vou colocar posts todos os dias (assinem o RSS deste blog, se quiserem acompanhar. Se não sabem o que é, comece a pesquisar! Ok. vou dar uma dica de como usar, no Youtube). Mas sempre que o alarme soar na minha cabeça, aqui estarei.

Vou dar um guento no seu tempo. E vamos começar juntos a deixar este mundo melhor com a mais poderosa arma que temos: o pensamento.

Até a próxima.

Rodolfo Nakamura

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